Durante quase cinco décadas, Angola falou do 27 de Maio de 1977 como uma tragédia política marcada por confrontos internos, perseguições e execuções, mas raramente olhou para o peso invisível carregado pelas mulheres daquela geração.
Enquanto muitos nomes masculinos entraram nos debates históricos, centenas de mães, esposas, estudantes e jovens militantes desapareceram sem qualquer reconhecimento público, como se nunca tivessem existido.
Algumas morreram nas cadeias, outras foram executadas sem julgamento e muitas passaram anos a sobreviver ao medo e à exclusão social.
Para familiares e investigadores, essas mulheres não foram apenas vítimas da repressão política, mas também de um apagamento histórico que continua até hoje.
“O país ainda não teve coragem de contar quantas mulheres desapareceram realmente”, afirmam activistas ligados à memória das vítimas do 27 de Maio.

Entre os rostos mais conhecidos está Sita Valles, médica, intelectual e militante política associada ao grupo de Nito Alves.
Porém, investigadores alertam que o foco em figuras conhecidas esconde centenas de mulheres anónimas que foram perseguidas apenas por serem esposas, irmãs ou amigas de suspeitos políticos.
Em muitos casos, bastava um sobrenome ou uma ligação afectiva para transformar uma mulher em alvo do Estado.
“As mães do 27 de Maio foram condenadas ao silêncio. Algumas nunca mais voltaram a sorrir, outras morreram sem saber onde os filhos foram enterrados”, relatam sobreviventes ouvidos por organizações cívicas.


O trauma não terminou em 1977 ele atravessou gerações dentro de famílias que aprenderam a sobreviver sem fazer perguntas.
Hoje, enquanto o país fala em reconciliação nacional, cresce também a pressão para que Angola reconheça oficialmente o sofrimento feminino daquela época.
Para muitos cidadãos, o verdadeiro debate não é apenas sobre quem morreu, mas sobre quantas histórias femininas foram apagadas para proteger narrativas oficiais.

