O Governo anunciou avanços para a introdução da Inteligência Artificial (IA) no sistema de ensino angolano, no âmbito do memorando de entendimento assinado em 2024 entre o Ministério da Educação e a Escola Digital dos Emirados Árabes Unidos. Apesar das intenções, especialistas alertam que a implementação efectiva da tecnologia enfrenta desafios estruturais ligados à formação docente, conectividade e infra-estruturas escolares.
O anúncio foi feito pela ministra da Educação, Luísa Grilo, à margem do Fórum sobre o Futuro da Educação, realizado durante a Cimeira Mundial de Governos, no Dubai.

Formação de professores é o ponto de partida
Segundo a ministra, a primeira fase do projecto está centrada na capacitação de professores e gestores escolares, considerados peças-chave para a integração da tecnologia no processo de ensino-aprendizagem.

De acordo com Luísa Grilo, foram seleccionadas dez escolas do ensino primário, distribuídas por igual número de províncias, para acolher o projecto-piloto. A instalação dos mecanismos técnicos e de segurança deverá iniciar ainda neste mês de Fevereiro, com vista ao arranque dos trabalhos ao longo do ano lectivo.
IA como ferramenta de apoio, não substituição

A responsável sublinhou que a Inteligência Artificial deverá funcionar como instrumento complementar ao trabalho pedagógico, reforçando a eficiência e a personalização das aprendizagens, sem substituir o papel do professor.
“Os professores continuarão a ser os líderes de todo o processo educativo”, assegurou, destacando que a tecnologia deverá apoiar o planeamento, a avaliação e o acompanhamento dos alunos.
Debilidades no sistema condicionam a implementação
Apesar do consenso internacional sobre o potencial da IA na educação, Angola enfrenta limitações significativas que podem condicionar a expansão do projecto. Durante o fórum, foram apontados como principais obstáculos a fraca conectividade, o acesso limitado à Internet e as desigualdades entre zonas urbanas e rurais.

Estas fragilidades estruturais levantam dúvidas sobre a rapidez e a abrangência da implementação da tecnologia no sistema público de ensino, sobretudo em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos.
Cooperação com Emirados aposta em educação digital
A participação de Angola no evento resultou de um convite das autoridades dos Emirados Árabes Unidos, país com o qual mantém um protocolo de cooperação na área da educação digital há dois anos.

O acordo prevê o fornecimento, por parte da Escola Digital, de metodologias de aprendizagem flexíveis, adaptadas às necessidades individuais dos alunos, com recurso a Inteligência Artificial avançada e aplicações digitais.
Educação como acto humano e social
Para o especialista em educação, Padre Próspero Cambéu, a introdução da Inteligência Artificial no ensino deve ser encarada como uma “faca de dois gumes”, exigindo equilíbrio e discernimento.
A técnica deve estar sempre ao serviço do ser humano. Quando usada para simplificar tarefas, apoiar processos pedagógicos e colaborar para a melhoria do trabalho docente, a tecnologia pode ser acolhida com serenidade.
No entanto, o especialista alerta que a situação se torna problemática quando a Inteligência Artificial é pensada como instrumento de substituição da intervenção humana.


“A educação é, em primeira instância, um acto humano”, sublinha, lembrando que é através dela que se moldam os seres humanos num processo essencialmente social, cultural e relacional.
Segundo o padre, a pedagogia envolve uma dimensão humana directa que não pode ser delegada a sistemas tecnológicos. Caso a Inteligência Artificial passe a substituir o papel do professor, corre-se o risco de inverter a lógica educativa, colocando o homem numa posição de submissão à técnica.

Para Próspero Cambéu, a Inteligência Artificial só faz sentido se contribuir para a humanização das crianças, apoiando o professor, mas nunca ocupando o seu lugar. “A educação continua a ser carne, presença, relação. É um acto real”, conclui.

