Por: Rui Kandove

Durante décadas, a televisão funcionou como o principal púlpito da política portuguesa. O acesso ao horário nobre conferia não apenas visibilidade, mas também uma aura de autoridade pública. A perceção amplamente difundida era a de que bastava ocupar o ecrã para captar eleitorado. O percurso de Luís Marques Mendes — três décadas de vida política e longa presença como comentador televisivo — ilustra o fim deste paradigma. O resultado modesto nas presidenciais confirma que a exposição mediática isolada já não garante mobilização. O voto autonomizou-se das velhas lógicas de mediação televisiva: diversificou-se, fragmentou-se e passou a depender de ecossistemas comunicacionais mais complexos.
O DECLÍNIO DOS PARTIDOS TRADICIONAIS
Os partidos históricos — PSD, PS, CDS e PCP — ficaram coletivamente abaixo da metade do eleitorado. Este desempenho revela um processo estrutural: erosão das fidelidades partidárias clássicas, enfraquecimento das identidades políticas tradicionais e ascensão de novos atores que comunicam com linguagens alternativas, muitas vezes mais adaptadas às dinâmicas digitais.
Se António José Seguro deseja alcançar melhores resultados na segunda volta, terá de romper com a formalidade excessiva que marca o seu estilo público. O eleitor contemporâneo valoriza proximidade, autenticidade e consistência digital. A política já não reside apenas no púlpito televisivo: vive num espaço híbrido entre rua, plataformas digitais e redes de interação contínua.
VENTURA E A DISPUTA PELA LIDERANÇA DA DIREITA
André Ventura sabe que a Presidência dificilmente está ao seu alcance — mas esse nunca foi o seu objetivo estratégico. A candidatura presidencial funciona como palco para disputar a liderança simbólica da direita e desafiar Luís Montenegro. Estas eleições são, para Ventura, um teste de força: servem para exibir visibilidade, combatividade e capacidade de mobilização num campo em recomposição.

Mais do que votos, Ventura procura hegemonia discursiva. Nesse sentido, a campanha cumpre plenamente a sua função. O espaço da direita — liberal, conservadora, popular ou democrata-cristã — encontra-se hoje permeável a disputas narrativas, e Ventura ocupa-o com agressividade comunicacional e clara intencionalidade estratégica.
CONCLUSÃO
A política portuguesa entrou numa nova etapa. A televisão deixou de ser o centro gravitacional do debate público. Os partidos tradicionais perderam densidade social. As redes sociais tornaram-se determinantes na formação das preferências, na circulação das narrativas e na construção das lideranças.
Seguro precisa de reinventar a sua comunicação. Ventura joga noutro tabuleiro, mais simbólico e estratégico. E o eleitor, cada vez mais plural e exigente, pede novas vozes, novos formatos e líderes capazes de comunicar para além do ecrã.
