Nova Iorque – O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que o mundo atravessa uma “situação de total impunidade” e criticou o desrespeito dos Estados Unidos pelo direito internacional, numa entrevista hoje divulgada pela BBC.
Segundo Guterres, os conflitos armados actuais deixaram de ser localizados, transformando-se em crises complexas com múltiplos actores envolvidos, o que dificulta a construção de soluções duradouras. “Estamos a assistir a uma situação de total impunidade. Conflitos que antes eram localizados tornaram-se cenários em que várias entidades se envolvem, criando contextos extremamente difíceis de resolver”, lamentou.


O dirigente máximo da ONU alertou que, embora as grandes potências exerçam forte influência nos conflitos, essa intervenção nem sempre resolve as causas profundas. “Há uma grande diferença entre um impacto rápido e a resolução das raízes do conflito. Temos muitos cessar-fogos, mas depois os confrontos recomeçam”, sublinhou.
Para António Guterres, processos de paz eficazes devem abordar questões estruturais como o desenvolvimento socioeconómico e o respeito pelos direitos humanos, defendendo que acordos rápidos, sem trabalho aprofundado, tendem a fracassar.
Na entrevista, o antigo primeiro-ministro português, que termina no final deste ano o seu segundo mandato à frente da ONU, defendeu o papel da organização, apesar das dificuldades internas e da escassez de financiamento, incluindo em contextos críticos como a Faixa de Gaza.
“O problema não são as Nações Unidas, o problema são os Estados-membros”, afirmou, apontando o uso recorrente do poder de veto no Conselho de Segurança como um dos principais entraves à actuação da organização.



Guterres criticou o que considera um uso indevido do veto por parte dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — para proteger interesses próprios, defendendo uma reforma do órgão.
O secretário-geral reiterou a necessidade de rever a composição do Conselho de Segurança e limitar o poder de veto, de modo a evitar bloqueios decisórios que, segundo afirmou, “são muito difíceis de aceitar e de justificar perante o mundo”.