Desafios Para 27 de Janeiro
O Dia em Memória ao Holocausto enfrenta negacionismos a cada ano.
Por: Victor Grinbaum
27 de janeiro foi a data escolhida pela ONU para rememorar o Holocausto, por ser o dia, em 1945, em que tropas do Exército Vermelho adentraram as instalações do campo de extermínio de Auschwitz e libertaram os poucos prisioneiros sobreviventes que ainda restavam.
O Holocausto — ou Shoah em Hebraico — é o crime político e o genocídio mais famosos da História. Aliás, o próprio termo “genocídio” seria criado a partir do Holocausto. Mas o Holocausto não é o único grande crime político do século. Sob muitos aspectos, não pode nem mesmo ser chamado de o maior deles. Numericamente, os morticínios causados pelos regimes comunistas russo e chinês seriam mais letais que o extermínio dos judeus pelos nazistas. Mas então o que torna o caso do Holocausto tão especial?

É que nenhum outro massacre teve a conjunção de fatores que se reuniram para formar o Holocausto. O século 20, que já entrou para a História como o mais sangrento de todos, já surgiu sob a égide de uma chacina; a dos armênios pelos turcos-otomanos, entre 1915 e 1916, no que é considerada a mãe de todas as matanças que se seguiriam pelas décadas seguintes. Mas seria somente nos anos 40 que os alemães levariam a missão de matar em massa ao estado da arte, reunindo metodologia administrativa e industrial numa máquina burocrática motivada por ideologia com o objetivo de erradicar completamente uma população.
Quase conseguiram. 35% dos judeus existentes no mundo pereceram. Quando se leva em consideração a quantidade de judeus europeus, a proporção aumenta — dois em cada três foram assassinados — o que revela o alcance e a competência da sistemática nazista.
Paradoxalmente, foi a mesma sistemática nazista que permitiria aos historiadores do tema terem acesso a tantos dados após a tragédia. Os alemães registravam tudo o que faziam, e essa papelada — milhões sobre milhões de documentos — se tornaram a principal prova de acusação contra eles mesmos e os registros que até hoje possibilitam o resgate das identidades e dos destinos de pelo menos cinco das estimadas seis milhões de vítimas judias.
Mas é ainda mais paradoxal que sendo o crime político mais famoso e o mais bem documentado, o Holocausto seja também o mais contestado. Passados apenas oito décadas desde o seu acontecimento (o que em termos históricos é um piscar de olhos), multiplicam-se aqueles que pretendem questiona-lo moralmente, numericamente e até negam a sua existência. Pesquisas realizadas periodicamente atestam que mesmo entre pessoas com escolaridade mais elevada, o nível de conhecimento básico sobre a história do Holocausto é decrescente. E bastam alguns minutos em qualquer rede social para constatar que após o Sete de Outubro, multiplicaram-se as vozes negacionistas ou relativistas.
Outro fator de risco para a memória do Holocausto é a escassez de testemunhas. A última estimativa da Claims Conference (entidade que agrega sobreviventes e reivindica reparações financeiras) estimou no início de 2024 que havia 240 mil sobreviventes ainda vivos, com média de idade de 86 anos. Os números, evidentemente, decaem drasticamente a cada ano, sendo virtualmente impossível que restem sobreviventes ainda vivos dentro de, no máximo, 15 anos.
Restarão as inúmeras instituições dedicadas à preservação de suas memórias e à conservação, pesquisa e consulta dos já citados milhões de documentos relativos. Mas a decadência da educação e a multiplicação da ignorância e da estupidez promovida pela internet e seus teóricos da conspiração são a garantia de que “a cadela do fascismo se manterá sempre no cio”, ainda que vestida de novas cores e parindo filhotes de outras ideologias.