Por: Rui Kandove

Está decidido: Emília Carlota Dias e Graciete Dombolo Sunga vão disputar a final no Congresso da OMA, marcado para fevereiro. Uma delas será a próxima secretária-geral da organização feminina do MPLA.

Emília Carlota entrou para a corrida como a favorita institucional — e o seu percurso fala por si. Fez carreira no Parlamento, onde alcançou o cargo de vice-presidente, acumulando capital político e visibilidade pública. Já Graciete Dombolo, mais jovem, construiu todo o seu trajeto na própria OMA, consolidando um posicionamento orgânico que lhe confere legitimidade interna e reconhecimento militante. Essa combinação de juventude, disciplina e trajetória institucional cria um contraponto interessante à narrativa que dá como garantida a vitória de Carlota Dias.
A primeira votação preliminar, realizada a 17 de janeiro, confirmou o que já se percebia nos corredores do partido: Carlota foi a mais votada, consolidando uma vantagem expressiva. Para muitos, a sua vitória parece quase pré-escrita — como diriam os antigos leitores de estrelas do tempo do nascimento de Jesus.
O PARADOXO ORGÂNICO
No plano interno, porém, existe um paradoxo difícil de ignorar. Graciete Dombolo é, para muitos militantes, a figura que melhor personifica a OMA. Militante disciplinada, integrante do Secretariado Nacional há pelo menos uma década, conhece profundamente o funcionamento da organização. Não perde por falta de legitimidade nem por incapacidade política — perde porque, neste ciclo, simplesmente não é o seu tempo( não cronológico), político.
O PAPEL DE JOANA TOMÁS

O mandato de Joana Tomás foi marcado por críticas vindas das bases e de sectores do MPLA. Ainda assim, no momento decisivo, protagonizou um gesto controverso: no plenário, afirmou que Graciete Dombolo “se candidatava ao seu próprio nome”, frase que soou como uma validação implícita da candidatura de Carlota Dias e, simultaneamente, como um distanciamento da direção cessante.
A situação agravou-se quando a secretária-geral em exercício deixou transparecer uma orientação de voto junto às delegadas — ato politicamente imprudente e estatutariamente discutível. A discrepância de votos no ensaio, incluindo os surpreendentes 16 atribuídos a Lurdes Caposso, levanta dúvidas razoáveis sobre a coerência interna do processo. Graciete (26%, 49 votos), mais orgânica e mais identificada com a matriz da OMA, poderia perder — mas dificilmente por uma diferença tão larga para Carlota (71,18%, 115 votos).
ARRANJO E OPACIDADE
Nos últimos anos, tornaram-se recorrentes os arranjos extra-competição no interior dos partidos nacionalistas (FNLA, MPLA e UNITA) e das suas organizações sociais. Embora as lideranças reiterem publicamente o compromisso com a transparência e não existam evidências de incentivo institucional a práticas opacas — há sempre grupos dispostos a explorar brechas do sistema.
É um traço persistente da cultura política angolana: em momentos decisivos, pequenos grupos moldam resultados e percepções através de influências informais, redes internas e negociações subterrâneas. Esse fenómeno tem sido amplamente identificado por analistas políticos e investigadores da vida partidária angolana.
CONCLUSÃO
Se nada mudar, tudo continuará igual. A disputa na OMA, mais do que um confronto entre perfis femininos de liderança, expõe tensões profundas sobre legitimidade, disciplina interna e mecanismos de escolha. Emília Carlota Dias deverá vencer, mas uma vitória sem reforma dos métodos e sem reafirmação ética será sempre uma vitória incompleta — e, para muitos, politicamente insuficiente.
