Por: Rui Kandove
A FNLA, uma das três formações históricas da luta pela independência, continua a carregar a própria trajetória como ferida aberta. Em quase todas as encruzilhadas políticas, o partido regressa ao mesmo lugar: conflitos internos, disputas estatutárias intermináveis, adiamentos sucessivos e uma liderança que parece viver em permanente tensão com as suas próprias estruturas. É um ciclo que se repete há décadas e que compromete, cada vez mais, a sua relevância no sistema partidário angolano.

Nimi Ya Simbi, presidente em exercício, tornou-se o centro visível dessa inquietação. No programa Bancada Parlamentar, da Rádio Correio da Kianda, reafirmou a intenção de conduzir o partido com estabilidade. Mas boa vontade não substitui a responsabilidade institucional, sobretudo quando militantes e o próprio país esperam sinais claros de organização.
O cancelamento, a 24 horas do início, da reunião do Comité Central — já com delegados presentes em Luanda — ultrapassou o simples plano administrativo. Revelou estagnação, indecisão e fragilidade institucional, agravadas pelo facto de a decisão ter ignorado o Bureau Político, órgão que o autorizara a convocar a reunião.




Não surpreende, portanto, que o Comité Central tenha respondido com uma moratória e uma declaração política exigindo nova data para a reunião destinada à criação da comissão preparatória do congresso. O prazo termina em 23 de janeiro. E todos os indícios apontam para que Nimi Ya Simbi dificilmente cumprirá o prazo, ampliando uma crise que já deixou de ser apenas organizacional: tornou-se estrutural.
É presidente contra Comité; vontade política contra normatividade interna; sobrevivência imediata contra memória institucional.
Este padrão não é novo. Kabango disputou com Lucas Ngonda; hoje, Nimi enfrenta Laiz Eduardo, Ndonda-a-Nzinga, Tristão Ernesto e António Fernando Pedro Gomes — este último cada vez mais citado como potencial candidato à liderança. A FNLA, que deveria resguardar a herança histórica que representa, converteu-se em palco de confrontos que se repetem como um ritual de autodesgaste.


O que torna a atual conjuntura especialmente grave é a dimensão simbólica. Cada crise interna da FNLA é também um espelho das dificuldades de Angola em reconciliar passado e presente. Um partido que participou na conquista da independência deveria ser referência de disciplina democrática e de renovação política. Em vez disso, transforma-se numa metáfora dolorosa da incapacidade de reinventar projeto, identidade e liderança.
O silêncio de Nimi Ya Simbi é, por isso, mais do que silêncio político. É o silêncio de uma história que hesita em avançar. Um silêncio que empurra o partido para longe de si próprio. E talvez resida aí o maior risco: ao não convocar o congresso, a FNLA pode estar a convocar a sua própria irrelevância.
A trajetória do partido é clara: não basta sobreviver — é preciso transformar-se. Sem respeito pelos estatutos, sem unidade mínima e sem abertura para novas lideranças, a FNLA arrisca permanecer presa ao seu passado, incapaz de dialogar com o presente e de reivindicar futuro.
Como tudo isso, a pergunta é, qual é a visão que a liderança da FNLA face ao crescimento do público eleitor.
