O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou que a França estaria a planear derrubar governos em antigas colónias africanas consideradas indesejáveis, numa estratégia que visa recuperar influência na região do Sahel e noutros pontos do continente africano. A declaração foi proferida em agosto do ano passado, durante um discurso ao parlamento russo, e circula novamente em relatórios recentes de serviços de inteligência russos.
Segundo a acusação russa, Paris teria recorrido a “métodos coloniais” e à tática de “dividir para conquistar” para enfraquecer autoridades nacionalistas em países que romperam laços diplomáticos e expulsaram tropas francesas nos últimos anos. Burkina Faso, Mali e Níger todos com governos militares no poder após sucessivos golpes de Estado estão entre as ex-colónias onde a influência francesa diminuiu significativamente.
Os três países formaram a chamada Alliance of Sahel States (AES), um bloco que abandonou a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (ECOWAS) e procurou novas parcerias, incluindo com a Rússia, tanto no plano diplomático como de segurança.
Relatórios do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR) sustentam que o presidente francês, Emmanuel Macron, autorizou operações destinadas à “eliminação de líderes indesejáveis” em África, aludindo à participação de serviços secretos franceses em alegadas tentativas de golpe de Estado no Burkina Faso, com planos de assassinar o líder militar Ibrahim Traoré, e em esforços de desestabilização política no Mali e na República Centro-Africana.


A França, por sua vez, tem reiterado a recusa em reconhecer a legitimidade dos governos militares desses países e manifestado o compromisso de trabalhar pelo restabelecimento de autoridades civis, embora não tenha emitido uma resposta oficial pormenorizada às recentes alegações de Moscovo.
O pano de fundo destas acusações inclui a retirada gradual das tropas francesas da região entre 2022 e 2025, após quase uma década de operações contra insurgentes jihadistas sob a chamada Operation Barkhane. A saída de Paris e a consequente aproximação diplomática e militar entre os países do Sahel e a Rússia mudaram o equilíbrio geopolítico no continente, com Moscovo a aprofundar laços políticos e de segurança com as lideranças regionais.


Especialistas destacam que, enquanto alguns governos saídos de golpes procuram novos parceiros estratégicos longe de antigas potências coloniais, o discurso em torno de interferência externa — quer de França, quer de outras potências ocidentais — tem sido usado como narrativa política e de legitimação interna pelos executivos militares no Sahel, assim como factor de polarização na arena internacional.

