O Ministério Público do Quénia apresentou novas acusações relacionadas com terrorismo contra o alegado líder religioso Paul Mackenzie e sete associados, na sequência da descoberta de 52 corpos enterrados em covas rasas no condado de Kilifi, no sudeste do país.
De acordo com o Diretor de Acusação Pública (DPP), os oito suspeitos respondem agora por participação em atividade criminosa organizada entre janeiro e julho de 2025, na localidade de Kwa Binzaro, nas proximidades da floresta de Shakahola. Segundo os promotores, o grupo teria promovido um sistema de crenças extremista e incentivado práticas que culminaram na morte de pelo menos 29 pessoas nesse período.
As autoridades afirmam que os acusados pregavam contra a autoridade do Estado e estruturaram uma rede organizada que facilitou atos classificados como terrorismo ao abrigo da legislação queniana. Em comunicado divulgado nas redes sociais oficiais do Ministério Público, os investigadores sustentam que os crimes ocorreram em datas ainda não totalmente determinadas ao longo do primeiro semestre de 2025.
A região de Shakahola já vinha sendo alvo de uma das maiores investigações criminais da história recente do país. Em 2023, mais de 430 corpos foram exumados de valas comuns na mesma área, num caso que ficou conhecido internacionalmente como o “culto da fome”. As autópsias indicaram que a maioria das vítimas morreu por inanição, enquanto outras incluindo menores apresentavam sinais de violência, como espancamento e estrangulamento.



Paul Mackenzie, fundador da Igreja Internacional Boas Novas, foi detido em abril de 2023, após a polícia resgatar vários seguidores em estado grave de desnutrição. As autoridades alegam que ele incentivava fiéis a jejuarem até à morte com a promessa de “encontrar Jesus” antes do fim do mundo. Desde então, enfrenta acusações que incluem terrorismo, homicídio, homicídio culposo, sequestro, tortura infantil e crueldade.
Os promotores sustentam ainda que, mesmo após a sua detenção, Mackenzie teria continuado a exercer influência sobre seguidores através de intermediários e de uma estrutura de apoio financeiro.
Os oito arguidos declararam-se inocentes das acusações. A próxima audiência judicial está agendada para 4 de março.
O caso reacendeu o debate no Quénia sobre a regulamentação de igrejas independentes e grupos religiosos, num país onde milhares de congregações operam de forma autónoma. Em 2023, outro líder religioso, o televangelista Ezekiel Odero, foi detido no âmbito de uma investigação distinta relacionada com alegadas mortes associadas à sua igreja em Malindi. Ele negou as acusações e acabou por ser libertado.

