
Por: Sousa Jamba
Ontem, 9 de Fevereiro de 2026, correram imagens de pessoas retidas em centros comerciais, em Portugal, enquanto as autoridades apertavam a malha numa caça assumida a imigrantes em situação irregular. Houve telefonemas nervosos. Mensagens em cascata. E aqueles silêncios compridos que dizem, sem dizer, o que o medo faz à voz. Muita gente procurou amigos cuja documentação, naquele instante, já ninguém jurava ter intacta.
Meio século depois de os africanos se terem libertado do colonialismo português, o quadro maior ainda custa a engolir: Lisboa transformada em íman para quem vem das antigas colónias, como se a cidade cosmopolita fosse a única saída para dores que não acabam. A capital brilha, promete, acena. Mas esse brilho funciona, muitas vezes, como cortina de fumo. Adia a pergunta essencial: por que razão, lá atrás, a vida continua a empurrar tanta gente para fora de casa?
Em Angola, Agostinho Neto deixou uma frase que, ainda hoje, opera como teste moral: não suspirem por férias em Portugal; façam-nas dentro de casa.
Em Angola, Agostinho Neto deixou uma frase que, ainda hoje, opera como teste moral: não suspirem por férias em Portugal; façam-nas dentro de casa.
Não era apenas um conselho turístico. Era uma disciplina de pertença, um apelo a descolonizar o desejo, a aprender a imaginar o conforto sem pedir licença ao antigo centro. Depois veio a guerra civil e, com ela, a grande pedagogia do medo. À procura de estabilidade, muitas famílias enviaram mulheres e filhos para Portugal, como quem afasta do incêndio a parte mais vulnerável do corpo. Até famílias nominalmente contra Portugal procuraram abrigo no velho eixo, não por amor, mas por necessidade.



Quando a paz chegou, o hábito ficou. Somaram-se razões práticas: escolas mais previsíveis, hospitais mais funcionais, bairros mais seguros. E há ainda um capital invisível, decisivo: crianças que crescem a falar português com sotaque de Lisboa e regressam com isso como se trouxessem um passaporte suplementar. Por esse “extra” pouparam-se salários, compraram-se apartamentos, alimentou-se o sonho de uma reforma numa varanda portuguesa. Portugal tornou-se, para muitos, prolongamento natural da trajectória angolana, um anexo sentimental e logístico.
Só que existe uma fricção de que raramente se fala em voz alta: muitos portugueses não gostam deles. E, quando a política decide “caçar” a irregularidade, essa antipatia difusa ganha uniforme, procedimento, rotina. Acresce a pressão sobre a habitação e os serviços sociais. Rendas a subir como maré sem travão; filas nos centros de saúde; salários que ficaram para trás, a contar moedas. Num país pequeno, cada novo corpo parece disputar o mesmo metro quadrado, a mesma consulta, a mesma vaga. O sonho de uns passa a ser lido como ameaça por outros. E é nesse choque que a política costuma riscar o fósforo.

Seria cómodo culpar, uma vez mais, o antigo colonizador. Mas há um espelho que impede essa facilidade: Cabo Verde. Fui àquelas ilhas três vezes e encontrei uma tensão improvável. Um arquipélago pequeno, de terra escassa, tornou-se também destino de migração. Africanos do continente tentam chegar atraídos por melhor escola, melhor saúde, mais estabilidade, uma espécie de “Europa tropical” com relógio a funcionar. E o íman cobra o seu preço. Ouve-se ali um nacionalismo inquieto, por vezes agressivo, com vozes a apontar o dedo aos mandjaku, como se um continente coubesse numa palavra e essa palavra bastasse para justificar a hostilidade. O mecanismo repete-se: o medo veste-se de identidade; a identidade procura um bode expiatório; o debate encolhe até caber num insulto.
Cabo Verde mostra que o ressentimento não é monopólio de uma capital europeia. Onde houver estabilidade e serviços que funcionem, haverá procura. E onde houver procura num espaço apertado, haverá a tentação de transformar o recém-chegado no problema inteiro. A lição é estrutural: o que empurra as pessoas para fora é, quase sempre, a ausência de condições dentro.
E é aqui que Angola entra, como centro da pergunta. Percorri o país de ponta a ponta e há uma evidência que salta à vista com violência: fora dos grandes eixos urbanos, Angola está subpovoada. Há vastidões de terra arável à espera de mãos; água em quantidades que seriam sonho noutros lugares; vales, planaltos, rios, microclimas. E, apesar disso, a nossa gente concentra-se nas cidades, encostada ao asfalto, como se o interior fosse apenas passado e não também futuro.
Para inverter isto, Angola precisa de uma revolução mais cultural do que administrativa. É preciso voltar a olhar para a agricultura como destino possível, digno, moderno. Não como castigo. Como escolha.


O Quénia mostra que essa viragem se constrói: ali, a lavoura tem prestígio; os jovens agricultores são protagonistas; a televisão transforma sementes e irrigação em narrativa nacional. A diplomacia queniana chega a ser interrogada, no parlamento, sobre uma questão patriótica: como vai vender os produtos do país?
Angola tem a terra e tem a água. Falta-lhe transformar a agricultura numa ideia de futuro, numa carreira que dê orgulho, numa linguagem de ascensão

