Por: Ernesto Tomás “Nukandatchimwile”
O caixão vai aberto. Não por respeito, mas por exposição. Para que todos vejam: o jornalismo angolano não morreu de morte natural, foi assassinado em direto, com microfone ligado e câmara a gravar.
À cabeceira, não há lágrimas. Há aplausos. O repórter sorri, o editor concorda, o pivot legitima. O poder fala, a imprensa repete. Ninguém pergunta. Ninguém interrompe. Ninguém duvida. O silêncio crítico é tratado como profissionalismo, a submissão como equilíbrio editorial.

O jornalista que deveria incomodar tornou-se cerimonialista do Governo. Anuncia promessas como feitos, apresenta números sem origem como verdades absolutas e transforma inaugurações vazias em grandes conquistas nacionais. Tudo é “avanço”, tudo é “progresso”, mesmo quando o povo afunda.
No funeral, a ética não compareceu. Foi dispensada por “razões editoriais”. O contraditório foi enterrado sem autópsia. A investigação morreu de fome. Restou a propaganda, bem vestida, bem iluminada, com linguagem institucional e selo de credibilidade.
O microfone, que nasceu para amplificar a voz do cidadão, virou megafone do poder. A câmara, criada para revelar, hoje esconde. E o jornalista, em vez de vigiar, vigia o próprio silêncio, com medo de perguntar demais e perder o lugar na fila do elogio.


Não se trata de incompetência. Trata-se de escolha. Não é apenas medo. É acomodação. É conveniência. É cumplicidade travestida de neutralidade.
Este funeral não precisa de flores. Precisa de responsabilidade. Porque o jornalismo angolano não caiu, foi vendido. Vendido em troca de acesso, cargos, privilégios e silêncio confortável. Vendido ao poder que deveria fiscalizar.
Aqui, a propaganda fala alto e a consciência sussurra. O jornalista já não teme a mentira; teme a pergunta. Já não protege o público; protege o sistema. A redação virou extensão do gabinete e a notícia, despacho oficial com assinatura disfarçada.


Não há neutralidade possível entre a verdade e a mentira. Não há equilíbrio entre o povo e o poder quando um deles é silenciado. Quem escolhe calar-se diante da injustiça não é neutro, é cúmplice.
Que fique registado: cada aplauso midiático a um fracasso político é um prego no caixão da verdade. Cada notícia sem fonte é uma agressão ao cidadão. Cada silêncio editorial diante do abuso é um acto de traição pública.
Se este jornalismo continuar de joelhos, Angola continuará às escuras.
E quando a história for escrita, não perguntará apenas quem governou mal, perguntará quem mentiu bem para que tudo continuasse igual.
O funeral está feito.
O microfone está ligado.
E a vergonha… está em direto.
Ndalatando: 06/02/2026

