O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou nesta segunda-feira que os Estados Unidos estariam utilizando sanções e outras medidas econômicas coercitivas para tentar consolidar uma posição dominante no mercado global. Em entrevista à TV BRICS, Lavrov destacou que essa estratégia inclui o controle de setores estratégicos, especialmente o energético, e pressiona países parceiros a seguir políticas comerciais alinhadas aos interesses americanos.
Segundo o chanceler, a imposição de tarifas, restrições e sanções sobre produtos e empresas estrangeiras configura um uso da economia como instrumento de poder político, que compromete a livre concorrência e afeta a autonomia de países terceiros.
Energia como instrumento geopolítico
Lavrov apontou que o setor energético é o principal alvo dessa estratégia. Ele citou gasodutos como o Nord Stream e o TurkStream, além do sistema de transporte de gás da Ucrânia, como infraestruturas que os Estados Unidos buscam controlar indiretamente. Para o ministro, essa ação limita o acesso de países parceiros, como Índia, a combustíveis russos a preços competitivos, enquanto incentiva a compra de gás natural liquefeito americano a custos significativamente maiores.
Os Estados Unidos têm usado sanções econômicas para limitar a capacidade de países rivais de atuar no mercado de energia. Um exemplo recente é a Rússia, alvo de restrições desde 2022: proibição de exportação de tecnologia para o setor de petróleo e gás e bloqueio da compra de petróleo russo por países aliados da América do Norte e Europa. O efeito foi a ampliação do mercado de Gás Natural Liquefeito (GNL) americano na Europa e aumento do preço do combustível.
As sanções dos EUA à Rússia e ao Irã, que limitam a exportação de petróleo e gás, impulsionaram as vendas de GNL americano e ampliaram o controle de Washington sobre preços globais. Alianças estratégicas com a Arábia Saudita e países do Golfo reforçam essa influência, enquanto rivais e blocos como o BRICS buscam alternativas energéticas para reduzir dependência e proteger sua autonomia.
BRICS e alternativas à influência americana
O chanceler também criticou a postura dos EUA em relação ao bloco BRICS, formado por Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul. Lavrov afirmou que obstáculos impostos pelo governo norte-americano dificultam a integração econômica entre os membros do grupo, o que teria motivado a Rússia a buscar mecanismos próprios para garantir estabilidade financeira, logística e comercial dentro do bloco.
“O BRICS representa um espaço onde se harmonizam planos de desenvolvimento econômico, social e de infraestrutura para a Eurásia, África e América Latina”, afirmou Lavrov, ressaltando a importância do bloco como plataforma de cooperação multilateral.
O chanceler também citou iniciativas práticas dentro do BRICS, como o interesse da África do Sul em conhecer programas do Brasil de combate à fome, evidenciando que o grupo não se limita a políticas macroeconômicas, mas busca intercâmbio de soluções concretas em áreas sociais e de bem-estar.


Além do aspecto econômico, Lavrov abordou o tema da inteligência artificial (IA) aplicada à defesa, alertando para tentativas de alguns países de concentrar o controle dessas tecnologias militares em estruturas subordinadas a poderes específicos.
A posição russa destaca que, para Moscovo, o BRICS deve servir como uma plataforma de transparência e cooperação, onde o uso de tecnologias avançadas, incluindo IA, seja regulado de forma multilateral, sem imposições externas que possam comprometer a autonomia dos países membros.
Washington e a defesa da ordem econômica global
Os Estados Unidos historicamente se apresentam como defensores do livre comércio e da concorrência internacional, defendendo instituições como FMI, Banco Mundial e OMC como mecanismos para regular conflitos econômicos e promover estabilidade global. Washington defendem suas políticas econômicas como mecanismos para proteger mercados e assegurar segurança internacional e concorrência leal. Sustentam que sanções e restrições comerciais são necessárias para coibir práticas comerciais desleais, proteger fornecedores estratégicos e manter a estabilidade financeira global.


No entanto, a Rússia e outros membros do BRICS veem essas ações como instrumentos de coerção, capazes de impor dependência econômica a países terceiros e limitar alternativas ao dólar e à influência americana no comércio e energia global.
Apesar das críticas, Lavrov afirmou que a Rússia permanece aberta ao diálogo econômico com os Estados Unidos, mas destacou a falta de perspectivas concretas de avanço. Ele citou que, mesmo após encontros diplomáticos recentes entre Trump e Putin, medidas restritivas sobre setores estratégicos russos continuam a vigorar, dificultando qualquer retomada significativa das relações econômicas bilaterais.

Impactos na ordem econômica global
Para o Kremlin, o BRICS representa mais do que um bloco econômico; é um projeto estratégico de integração global, capaz de conectar continentes, fortalecer economias emergentes e oferecer alternativas à ordem econômica dominada pelo Ocidente. A iniciativa russa visa consolidar o bloco como um espaço de coordenação econômica, logística e social, equilibrando as relações internacionais e ampliando o papel de países emergentes no cenário mundial.
A declaração do chanceler russo reflete a visão de Moscovo de que a economia mundial está cada vez mais moldada por interesses estratégicos, em vez de competição justa. Para especialistas, essa dinâmica indica um aprofundamento das tensões geopolíticas e uma possível reorganização das rotas comerciais e fluxos energéticos globais, com maior protagonismo de blocos como o BRICS.

