
A África do Sul vai encerrar a sua participação militar na Missão de Estabilização das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO), após 27 anos de envolvimento contínuo. A decisão foi anunciada este, domingo 08, pela presidência sul-africana, que confirmou a retirada progressiva das tropas até ao final de 2026.
O Presidente Cyril Ramaphosa já comunicou a decisão ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, explicando que a medida integra um processo mais amplo de realinhamento e consolidação dos recursos das Forças de Defesa Nacionais da África do Sul.
Fim de uma longa contribuição militar
Actualmente, Pretória figura entre os dez maiores contribuintes de tropas para a MONUSCO, com mais de 700 militares destacados no terreno, apoiando operações de proteção de civis, segurança de pessoal humanitário e esforços de estabilização institucional no país.
Segundo o comunicado oficial, a retirada resulta da “necessidade de consolidar e realinhar os recursos das Forças de Defesa Nacionais da África do Sul, após quase três décadas de contribuição para as operações de manutenção da paz da ONU na RDC”. O governo sul-africano garantiu que trabalhará em estreita coordenação com as Nações Unidas para definir o calendário e assegurar uma retirada faseada.


Apesar da saída da MONUSCO, Pretória reafirma o compromisso com a estabilidade regional. A presidência sublinhou que o país continuará a manter relações bilaterais próximas com o governo congolês e a apoiar iniciativas multilaterais no âmbito da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), da União Africana (UA) e da própria ONU.
Impacto imediato na segurança regional
Criada em 1999 pelo Conselho de Segurança, a MONUSCO opera num dos contextos de segurança mais complexos do mundo. A região leste da RDC, rica em recursos minerais, permanece marcada pela violência de vários grupos armados, incluindo o M23, que disputam controlo territorial com as forças governamentais. Os confrontos intensificaram-se no início de 2025, com a tomada de cidades estratégicas como Goma e Bukavu, provocando milhares de mortos e deslocados.
A retirada das tropas sul-africanas da Missão de Estabilização das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) poderá provocar, nos próximos dias, um aumento da pressão sobre as forças internacionais ainda destacadas no leste do país. A redução do contingente tende a enfraquecer a capacidade de resposta da missão em zonas críticas, onde a presença de grupos armados continua activa.


Especialistas em segurança alertam que a diminuição do efetivo pode facilitar a movimentação de milícias como o M23, agravando a insegurança e elevando o risco de novos confrontos. O cenário poderá traduzir-se em mais ataques contra civis e em dificuldades acrescidas para as organizações humanitárias que operam na região.
AONU deverá recorrer à redistribuição de tropas de outros países ou ao reforço de iniciativas regionais, com destaque para a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e a União Africana. No entanto, estas alternativas exigem tempo de implementação e podem não compensar de imediato a perda de um contingente experiente
As autoridades congolesas acusam há anos o Ruanda de apoiar grupos armados e explorar recursos minerais na região e acusações rejeitadas por Kigali. Em paralelo, a África do Sul já havia retirado, no ano passado, as suas tropas destacadas no leste da RDC no âmbito da missão regional da SADC, após o término do respetivo mandato.

Contributo sul-africano ao longo de quase 30 anos
Durante cerca de três décadas, as forças sul-africanas desempenharam um papel relevante nas operações de manutenção da paz na RDC. Participaram em ações de estabilização, incluindo operações robustas contra grupos armados, proteção de civis, segurança de corredores humanitários e apoio à assistência internacional.
Além das operações militares, a África do Sul contribuiu com formação e apoio logístico às Forças Armadas congolesas, reforçando a capacidade local de resposta. A sua presença ajudou igualmente a dar peso político e credibilidade à MONUSCO, num contexto regional marcado por tensões e interesses estratégicos.
Com a retirada programada até ao final de 2026, a ONU e o governo da República Democrática do Congo enfrentam o desafio de garantir a continuidade da proteção de civis e evitar um agravamento da crise de segurança no leste do país, numa região onde a estabilidade continua frágil.



