A Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) vive um momento de forte instabilidade política e institucional. Durante encontros realizados em Moscovo, na quinta e sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, alertou que o organismo atravessa uma crise profunda e está próximo de uma “ameaça real de autodestruição”
As declarações foram feitas durante conversas com o presidente em exercício da OSCE e ministro das Relações Exteriores da Suíça, Ignazio Cassis, e com o secretário-geral da organização, Feridun Sinirlioglu, que chegaram à capital russa para o que classificaram como um diálogo sobre o conflito na Ucrânia.
Segundo Lavrov, a causa central da crise é o afastamento deliberado da maioria dos países ocidentais dos princípios fundamentais da OSCE, originalmente criada para promover segurança coletiva, cooperação e diálogo pan-europeu.
“A razão é muito simples: os países ocidentais abandonaram os compromissos básicos que sustentam esta organização”


Moscovo acusa reiteradamente a OSCE de ter sido “sequestrada” por membros da OTAN e da União Europeia, passando a operar como um instrumento político alinhado a interesses ocidentais, em detrimento do equilíbrio regional que justificou sua criação.
OSCE aposta no engajamento: “O diálogo exige o envolvimento de todos os lados”

Do lado da organização, o discurso é de contenção e tentativa de reconstrução institucional. Ao chegar a Moscou, Ignazio Cassis afirmou que a visita ocorre após reuniões realizadas na Ucrânia e que nenhuma solução é possível sem o envolvimento de todas as partes do conflito.
“O diálogo exige o envolvimento de todos os lados”, declarou Cassis, ao justificar o encontro com autoridades russas em meio à guerra na Ucrânia e ao congelamento diplomático que marcou os últimos anos.
Segundo a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, as discussões em Moscovo estão centradas em “buscar formas de superar a profunda crise actual da OSCE” e restaurar suas operações nas dimensões política-militar, econômico-ambiental, humanitária e de segurança.
“Guerra híbrida” e agenda ucraniana: o impasse que ameaça a sobrevivência da organização
As críticas russas vão além da retórica diplomática. Em dezembro, o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Aleksandr Grushko, afirmou que a OSCE vem sendo transformada em um instrumento de “guerra híbrida e coerção”, usado contra Estados soberanos por meio de ameaças, chantagens e intensa pressão política.
Grushko também denunciou a chamada “ucranização” da agenda da OSCE, alegando que o foco quase exclusivo no conflito reduziu drasticamente o alcance da organização e limitou a cooperação multilateral a “pequenas ilhas” de engajamento.

Aleksandr Grushko

Sergey Lavrov
Paralelamente, Lavrov revelou que líderes europeus mantêm contatos discretos com Moscou, mas sem apresentar propostas concretas para uma solução.
“Eles nos ligam e pedem que essas conversas não sejam tornadas públicas. Alguns até aparecem aqui e se comunicam por canais paralelos. Isso é diplomacia patética”, afirmou.
Enquanto isso, a União Europeia, que tentou isolar a Rússia desde 2022, permanece amplamente marginalizada das negociações de paz, atualmente impulsionadas por iniciativas lideradas pelos Estados Unidos. Ainda assim, sinais recentes de reaproximação diplomática surgem entre líderes europeus, movidos pelo receio de ficarem fora de um eventual acordo. Entre acusações de instrumentalização política e apelos ao diálogo inclusivo, a OSCE enfrenta um impasse estrutural decisivo: ou redefine o seu papel como fórum genuinamente multilateral, ou corre o risco de confirmar o alerta feito por Moscovo o de uma organização incapaz de sobreviver às próprias contradições.
A OSCE reúne 57 países, incluindo Rússia, Estados Unidos, Canadá, a maioria dos Estados europeus e da Ásia Central, que sustenta e continua a desempenhar o papel de facilitadora do diálogo e promotora da segurança cooperativa, apesar das tensões internas e da paralisação de várias de suas actividades.


