Pelo menos 191 pessoas foram mortas em ataques coordenados a aldeias no centro e norte da Nigéria, um episódio que revela a vulnerabilidade persistente do país diante da escalada de grupos jihadistas. Os ataques mais mortíferos ocorreram nas aldeias de Woro e Nuku, no estado central de Kwara, e na vila de Doma, no estado norte de Katsina, de acordo com autoridades locais e a Anistia Internacional. Moradores relataram execuções sumárias, incêndios em casas e lojas, sequestros e rituais de terror destinados a impor o domínio do Boko Haram sobre as comunidades rurais.
As investidas destacam o fracasso histórico da segurança nigeriana, mesmo em regiões que mantinham acordos de paz temporários com grupos armados, evidenciando que a presença do Estado permanece limitada e incapaz de proteger populações vulneráveis.
Ataques metódicos e violência extrema
Segundo a RT, os militantes amarraram as mãos das vítimas e degolaram algumas delas, enquanto outras foram baleadas à queima-roupa ou queimadas vivas. O impacto psicológico sobre os sobreviventes é profundo, e muitos moradores ainda procuram por corpos desaparecidos. A emissora destacou que “várias pessoas também foram raptadas, e há uma impressionante ausência de qualquer forma de segurança para proteger vidas”
Em Katsina, pelo menos 21 pessoas morreram em ataques semelhantes, mesmo em comunidades que haviam firmado acordos de paz com grupos armados. As ações, segundo autoridades locais, ocorreram de casa em casa, demonstrando planejamento e brutalidade sistemática.


O presidente nigeriano, Bola Tinubu, condenou os ataques como “covardes e bárbaros”, atribuindo a responsabilidade ao Boko Haram e ressaltando que os militantes atacaram moradores que se recusaram a aderir a interpretações extremistas do islamismo. Tinubu enviou um batalhão do exército ao distrito de Kaiama, em Kwara, para reforçar a segurança e conter futuros ataques, embora analistas questionem se uma resposta militar pontual será suficiente para deter a escalada.
Posicionamento dos EUA sob Trump: intervenção estratégica e pressão política
Durante a crise, os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, intensificaram sua atuação militar e política na Nigéria. O chefe do AFRICOM, General Dagvin R.M. Anderson, confirmou que uma “pequena equipe” de forças americanas foi enviada à Nigéria para apoiar operações contra Boko Haram e o Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP). Anderson afirmou que a equipe:

“traz capacidades únicas dos Estados Unidos para complementar o trabalho que a Nigéria vem realizando há vários anos” .
O envio ocorreu após discussões com o presidente nigeriano Bola Tinubu sobre cooperação antiterrorista. A Nigéria é considerada “um ótimo exemplo de parceiro muito disposto e capaz”, que solicitou apoio americano para enfrentar ameaças que excedem sua capacidade operacional.
Politicamente, Trump combinou pressão e assistência: criticou Abuja por não proteger cristãos, caracterizando os ataques jihadistas como um possível “genocídio”, enquanto formalizou um acordo bilateral de segurança em dezembro, permitindo compartilhamento de inteligência e suporte militar, sempre respeitando a soberania nigeriana.
Essa abordagem evidencia a dupla estratégia dos EUA: atuar como aliado militar, mas também influenciar decisões estratégicas e operacionais em um país com infraestrutura limitada de segurança.
Crise estrutural de segurança e fragilidade estatal
A Nigéria, maior país da África em população, enfrenta uma crise prolongada de segurança, impulsionada por insurgentes jihadistas e gangues locais conhecidas como bandidos. Moradores relataram que os militantes pressionam comunidades há anos a abandonar a autoridade do Estado e adotar a lei da sharia. Quando os moradores resistem, a resposta é imediata e violenta.
Em Woro, cerca de 38 casas foram destruídas, e lojas e plantações queimadas, aumentando a vulnerabilidade econômica da população local. Em Doma, apesar de acordos de paz, militantes atacaram indiscriminadamente, demonstrando que acordos isolados não garantem proteção.




A escalada contínua evidencia que o sistema de defesa nigeriano é insuficiente para proteger aldeias remotas, e que a presença militar pontual não impede incursões rápidas e mortais de grupos jihadistas.
Rescaldo e perspectivas futuras
Os ataques de Kwara e Katsina são apenas os episódios mais recentes de uma onda contínua de violência do Boko Haram e outros grupos armados. Nos últimos dois anos, centenas de aldeias sofreram massacres, sequestros e destruição de propriedades, com centenas de mortos e milhares deslocados.
Embora a presença de tropas nigerianas e apoio limitado dos EUA ajudem a conter alguns ataques, especialistas alertam que sem reformas estruturais, melhor inteligência militar e presença efetiva do Estado, a violência continuará a se expandir.
O rescaldo evidencia que a segurança no país permanece crítica, com áreas centrais e norte vulneráveis a ataques frequentes e mortais, reforçando a necessidade de uma estratégia de segurança integrada e cooperação internacional consistente para proteger civis e conter a expansão de grupos extremistas

