A recente denúncia de violência extrema contra uma menor de 14 anos, no município de Viana, volta a expor uma ferida antiga da sociedade angolana: a incapacidade persistente do Estado e da família em proteger a criança dentro do próprio lar — espaço que, historicamente, deveria ser o primeiro refúgio e não o primeiro risco.
O caso, tornado público pelo Instituto Nacional da Criança (INAC), envolve uma cidadã acusada de agredir fisicamente a filha, sob a alegação de esta manter uma relação com o próprio pai. A situação, já entregue às autoridades competentes, integra um conjunto mais amplo de 93 ocorrências de violência psicológica registadas entre 25 e 31 de Janeiro em todo o país.



No mesmo período, o INAC contabilizou 888 denúncias, com maior incidência nas províncias de Luanda, Huambo, Benguela, Cunene e Lunda-Norte — números que revelam não episódios isolados, mas um padrão estrutural.
Casos de abuso sexual intrafamiliar também constam do balanço oficial. No Huambo, uma criança de dois anos foi vítima de abuso por parte do próprio pai. Em Luanda, no município dos Mulenvos, uma menor de 13 anos foi igualmente abusada por um progenitor. Situações que reforçam uma realidade incómoda: a violência contra crianças em Angola ocorre, maioritariamente, dentro da família.

