A lentidão do sistema judicial angolano está a comprometer a recuperação de mais de 422 mil milhões de kwanzas em crédito malparado sob gestão da RECREDIT, aumentando a pressão sobre o processo de saneamento financeiro do país. Os processos, ligados sobretudo a grandes grupos económicos, continuam paralisados nos tribunais, dificultando a recuperação de activos e reduzindo a eficácia das medidas de estabilização do sector bancário.
Do ponto de vista financeiro, os resultados da recuperação continuam abaixo das expectativas. A primeira carteira adquirida pela RECREDIT ao Banco de Poupança e Crédito envolveu mais de 231 mil milhões Kz investidos, associados a uma exposição total de dívida de 288,2 mil milhões Kz. Contudo, até ao final de 2025, apenas cerca de 13% do montante havia sido recuperado, revelando limitações estruturais no processo de cobrança e recuperação judicial.


Em termos empresariais, o caso evidencia o impacto directo da morosidade judicial sobre o ambiente de negócios e o sistema financeiro angolano. Empresas com capacidade parcial de pagamento continuam com processos arrastados por anos, enquanto activos ligados às dívidas perdem valor, patrimónios são reorganizados e oportunidades de recuperação diminuem progressivamente. Para analistas, esta situação reduz previsibilidade jurídica e aumenta percepção de risco para investidores e instituições financeiras.
No plano económico, a dificuldade na recuperação do crédito malparado afecta a capacidade do sistema bancário em reciclar capital e expandir financiamento à economia produtiva. A existência de elevados volumes de dívida incobrável continua a limitar concessão de crédito a empresas e famílias, reduzindo dinamismo económico e atrasando o fortalecimento do sector financeiro nacional.


Especialistas defendem que o problema ultrapassa a dimensão bancária e expõe fragilidades estruturais do sistema judicial angolano, sobretudo na tramitação de processos económicos e financeiros de grande dimensão. A demora de mais de um ano apenas para citação de empresas é vista como um sinal crítico de ineficiência institucional, incompatível com a necessidade de acelerar reformas económicas e aumentar confiança dos mercados.
A médio prazo, o sucesso da recuperação financeira em Angola dependerá não apenas da actuação da RECREDIT, mas também da capacidade dos tribunais em responder com maior rapidez e eficiência aos processos económicos. Sem reformas profundas no sistema judicial, especialistas alertam que o país continuará a enfrentar dificuldades na recuperação de activos, redução do risco bancário e fortalecimento do ambiente de investimento.

